Conversa com designer I – Nicole Tomazi: “O design para mim é muito mais imaterial”

Nicole Tomazi - MD - eleone-prestes

Cabelos curtos, pele clara limpa de subterfúgios, sorriso sincero, roupa ampla, convidativos raios de sol da manhã. Na Casinha, ateliê no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, endereço que divide com uma designer de joias, a arquiteta que optou pelo design, Nicole Tomazi, nos acomodou na sala da frente, com janela e porta abertas para a rua, protegidas por muro e portão de grade. Nesse cenário urbano, mas dentro de um sobrado que acolhe com as entranhas de tijolos expostas, depois de um rápido tour sentamos junto a uma mesinha próxima a exemplares de seu design, que ora soa como afetivo e ora complexo.

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Prontas para a entrevista: Eleone Prestes e Nicole Tomazi. Entre nós, o Vaso Mole em amarelo

À frente de um café abri o computador para anotar a nossa conversa serena que transcrevo aqui, na ordem em que ocorreu, com o mínimo de intervenção para manter a essência. Acho importante para os jovens designers conhecer a história e a trajetória de alguém saída da serra gaúcha, radicada em Porto Alegre, conhecida de São Paulo a Milão.

Duas Nicole T: Tomazi e Toldi, vizinhas de estande na MADE dando os últimos retoques no espaço de Nicole Tomazi no Pavilhão da Bienal, durante a DW! (Foto Eleone Prestes )
Duas Nicole T: Tomazi e Toldi, vizinhas de estande na MADE dando os últimos retoques no espaço de Nicole Tomazi no Pavilhão da Bienal, durante a DW!
Estande pronto para receber na MADE. nicole-tomazi-eleone-prestes
Estande pronto para receber na MADE
Exposição Haydé, concebida por Nicole Tomazi - foto Eleone Prestes
Exposição Haydé, concebida por Nicole Tomazi

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Esta semana Nicole Tomazi apresenta seu trabalho recente, a Coleção Imigrante, em vime (foto ao alto, por Marcelo Donadussi, divulgação e fotos acima por Eleone Prestes) na MADE (Mercado. Design. Arte), no Pavilhão da Bienal, durante a DW! (Design Weekend), em São Paulo e mostra uma instalação que contamos mais adiante do que se trata. Ela também é jurada do Prêmio Salão Design, com Brunno Jahara, Glaucia Binda, Ivens Fontoura e Paulo Biacchi, cuja cerimônia de premiação será dia 9 de agosto, na feira High Design Home & Office Expo, em São Paulo. Bem, esta conversa, na ordem em que é para quem gosta de gente, histórias, design, dúvidas e certezas.

Formação do singelo

Ter nascido no Interior e vivenciado o trabalho da avó materna Vera Saretta, marcou a ariana Nicole, primeira neta por parte de mãe. “Foi a mulher mais importante na minha formação do singelo. Ela tinha uma coisa de se surpreender com o simples e me chamava: um passarinho que parou na janela, a lua do dia. Eu carrego isso até hoje, esse exercício de se surpreender com a simplicidade das coisas.”

Dom do desenho

A contribuição da força da genética dos Tomazi: “E, por outro lado, tem a parte da família do meu pai. Ele foi desenhista por muitos anos. Começou com 13 anos numa fábrica de esquadrias em Veranópolis e virou desenhista das esquadrias. Por muitos anos, trabalhando com arquitetos de Porto Alegre. Fazia o detalhamento de esquadrias à mão. O dom do desenho está no sobrenome Tomazi, todos têm a facilidade de desenhar à mão.” O irmão oito anos mais novo cursou Engenharia Civil e agora está estudando Ciência da Computação: “o desenho dele é mais dos números”. Esse olhar para a família é importante para Nicole: “É impossível não falar dessa raiz. Hoje o que eu sou e valorizo tem muito a ver com isso.”

A ida para Porto Alegre

Há 30 anos a família saiu da pequena cidade serrana Veranópolis, com menos de 20 mil habitantes na época, para Porto Alegre. O pai precisava fazer um tratamento de saúde que não havia no Interior. Logo em seguida a mãe engravidou do irmão. Só o que não mudou foi o contato com a avó Vera. “Eu sempre passava as férias em Veranópolis, grudada na vó, que foi quem me ensinou todas as técnicas artesanais que sei: tricô, crochê e bordado. Ela sabia costurar, eu nunca aprendi.”

Profissão inicial: PUCRS, Arquitetura, 2004

“Eu sempre dizia que ia ser arquiteta. Aos 13 anos tinha uma pasta com todos os desenhos das casas que ia projetar, com perspectiva, pintava tudo. A mãe ainda tem essa pasta. Fiz o curso no tempo mínimo. Trabalhei muito com arquitetura comercial. Grandes, como CIEE, AES Sul, fiz o padrão de lojas deles. Fazia algum residencial também. Eu trabalhava na equipe do escritório do Zé (marido, José Antonio Verdi), Verdi Design: ele fazia toda a parte gráfica e eu entrava para fazer os espaços. Hoje a empresa dele tem 21 anos.”

A busca pelo sentido

A profissão de arquiteta não trouxe a realização que os desenhos da infância prometiam. “Trabalhei três anos como arquiteta. Até abrir a Oferenda Objetos. Acho a profissão de arquiteta muito bonita mas tinha coisas… não importava muito a história das coisas, o bonito era fazer tudo novo. Eu sou muito preocupada com a história que as coisas contam. Demolir coisas históricas para colocar o material da moda começou a me doer muito.

Fui buscar o que era importante para mim mesmo. Exatamente em uma época que fomos a Buenos Aires, em 2005. Tive a vantagem de começar a vivenciar o design. Lá vimos o que não havia aqui: o design auto-produtor, tanto de moda quanto de produto e, em muitos casos, o designer atendendo a loja em Palermo. Aí vislumbrei uma alternativa.

Desenhar produto para a indústria não tinha abertura. Há 10 anos a indústria ainda estava engatinhando. Sem um currículo não funcionava. Aí vendo isso em Buenos Aires, vislumbrei o que que veio a ser a Oferenda, uma empresa que valoriza o artesanato por meio do design. Em 2007, a Oferenda nasceu.”

O processo

Sua primeira participação em feira nacional ocorreu um ano depois da abertura da Oferenda, envolvendo mão de obra artesanal. Decorre daquela época o seu icônico vaso mole, até hoje tramado com fio de algodão, e o pufe de lã. “Busquei uma cooperativa de artesãos na época e desenvolvi uma primeira coleção que apresentei em agosto de 2008 na Paralela (no Instituto Tomie Ohtake), projetando em cima da técnica de cada artesão. Não era uma coleção. Eram produtos projetados em cima da técnica.” Nicole diz ser muito grata à curadora da feira Paralela, Marisa Ota. Ela disse a Nicole: “Você está muito à frente”. E ela estava.

Feiras no Brasil e no Exterior

Nicole Tomazi já deixou a sua marca em cinco feiras A Paralela é muito importante porque difunde para o Brasil inteiro. Em fevereiro de 2018, ela participará de novo. Neste momento, está na MADE. “Meu ritmo é uma vez por ano.”

Na Itália, participou do Fuori Salone em 2009 na exposição Brasil è Cosi, depois em 2010 participou do Salone Satellite no estande do designer e empresário Pedro Franco (A Lot Of) com o sofá Minuano, que trabalhou com o tecido do projeto Favos. Em 2012, foi a vez da Fractal no Salone Satellite; em 2013, da Jangada, também no Satellite. E, em 2015, Fuori Salone de novo na Made a Milano, no Palazzo Litta, com a Sol do Sul, linha feita com dressa, palha de trigo trançada.

Tradição hand made

“Eu estava pensando quando foi que comecei a trabalhar com a questão da tradição, não só italiana, mas do Rio Grande do Sul”, reflete a designer, sobre o tricô e o crochê. “Não se pode dizer que são de uma região, tem de São Borja a Nova Petrópolis.”

Em 2010, Nicole começou a trabalhar em suas criações com tecido do grupo Favos (de São Borja) no sofá e, em 2015, com a dressa: “Eu já trabalhava com esse tipo de técnica como consultora do Sebrae para os grupos” (de artesanato, trabalho recentemente desarticulado). Em dezembro, foi finalista no A Casa Museu do Objeto Brasileiro, com o painel Urbaneza, coleção recente.

Falando sobre o Rio Grande do Sul

“Eu acho que a gente tem muito potencial como Estado criativo, de matéria-prima, mas a gente precisa, como criadores, produtos e indústria pensar coletivamente, no sentido de que não é uma competição”, diz Nicole que cita o caso positivo de Minas Gerais.

Ela prossegue, sugerindo que precisamos mudar a conjuntura virando exemplos, mostrando confiança e inovando: “As pessoas têm medo de fazer pelo medo que vá dar errado. Mas é assim que nasce a inovação. Senão a gente só replica.”

Foi o que ela fez ao construir o seu caminho, quando “muito pouco se falava de design e artesanato juntos.” Corajosa, ela ensina: “Primeiro, tem que formar um público que aceite e depois consuma.”

Geografia do mercado

Agora, uma realidade: “O meu público está em São Paulo. Aqui (em Porto Alegre), as pessoas não entendem o vaso mole.” Na capital gaúcha, a designer tem algumas peças apenas na Studio Casa 54. Já na capital paulista, há Nicole Tomazi em lojas como DPOT, “que vende muito bem”, e na loja do MASP. Em Curitiba, na loja de design autoral Ôda Design Club e, em Caxias do Sul, na serra gaúcha, na nova loja A Casa. Pela web, Nicole Tomazi se comunica pelos sites Oferenda.net e Nicoletomazi.com. A sua ideia é sempre vender para lojistas.

Mais formação

Nicole terminou mestrado há um ano e meio na UniRitter. Sua pesquisa foca basicamente a relação de artesãos e territórios, que é a valorização da identidade local. Ela teve muitas experiências, desde a consultoria de design junto ao Sebrae até o seu trabalho. Entre 2010 e 2011, desenvolveu para a Tok&Stok e produziu pela Oferenda a linha Crocheteira, com resíduos de tecido. Vinte mulheres usaram uma tonelada de resíduos.

“Tinha que comprar lixo, manufaturar e vender como produto. Demorou um ano entre desenvolvimento, prototipagem, testes, adequação de preços. Foi uma escola. O primeiro pedido era de quase 4 mil peças. Tudo o que podia dar errado, deu e o que podia dar certo, deu. É uma pena, mas não dá para acessar todo mundo com uma coleção, por isso queria trabalhar com a Tok&Stok.”

Agora Nicole Tomazi recebeu convite para desenvolver mais uma coleção, para lançar no primeiro trimestre de 2018.

MADE (Mercado.Design.Arte) e design imaterial

O público do DW! Design Weekend verá na MADE, no Pavilhão da Bienal, a Coleção Imigrante (foto ao alto), de 9 a 13 de agosto de 2017. Ela explica a escolha do vime a partir de sua história familiar:

“Tem a ver com a vontade de trabalhar a minha própria essência. Sou descendente de imigrantes, meus bisavós paternos vieram de Trento, e os da mãe (Sibeli), de Veneto.” O pai, Sergio Tomazi, é descendente de italianos e a avó, de origem polonesa.

Ao comentar a relação do imigrante com a terra lembra que o vime servia para fazer utensílios, “principalmente as cestas de lavoura, que também levaram o vinho e o pão para as festas de colônia. Todo um universo que também propagou o próprio design na Serra, faz parte do início de tantas indústrias.”

Nicole reflete sobre os imigrantes que vieram para o Brasil fugindo de guerras, trazendo a questão para os dias atuais: “Utilizo o objeto para manifestos, para pensamentos. O design para mim é muito mais imaterial. Escolhi o vime e o metal porque são dois materiais que se moldam, assim como os imigrantes se moldam quando chegam aqui e trazem sempre uma coisa nova.

Uma personagem vira instalação

O trabalho de Nicole Tomazi está em um estúdio de 5 metros quadrados, entre os espaços de design autoral do total de 8 mil metros quadrados, inclusive com exposições internacionais. E mais: está levando uma instalação com o trabalho de dona Haydé, uma senhora tricoteira da Serra que faz design intuitivo para vestir crianças necessitadas. A história dessa mostra é incrível e causará impacto a quem subir a rampa do pavilhão da Fundação Bienal, no Parque Ibirapuera.

Da Inglaterra aos Estados Unidos

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Publicação inglesa The New Artisans II com trabalhos de Nicole Tomazi

Nicole Tomazi tinha em seu ateliê um livro de capa dura, lançado em 2011, a primeira edição de The Artisans I. Era daqueles que a gente reverencia e de vez em quando olha com admiração para os trabalhos contidos neles. Eis que o autor conheceu o seu trabalho em Milão, em 2015 e agora ela está no The New Artisans II, de Olivier Dupon, editado pela Thames & Hudson, uma publicação inglesa. E este ano entrou em contato com ela o jornalista Jonathan Foyle, que escreve para o Financial Times. Ele estava fazendo uma série sobre artífices do mundo e escolheu a gaúcha como uma artífice brasileira porque viu o seu trabalho no livro. Que tal?

O Brasil nunca será Dinamarca

Claro, ela não perdeu a oportunidade de dizer o que pensa: “O Financial me deu a oportunidade de dar martelada no modelo europeu. Quando há reconhecimento internacional, é de gente que faz design nórdico, que eu acho lindo. Na Noruega. O Brasil nunca vai ser uma Dinamarca, vai ser sempre o Brasil e a gente está sempre replicando o modelo.”

Para ela, a sua postura a levou às publicações em países ditos de Primeiro Mundo: “Acho que estar no livro é o resultado de não sofrer imposição de padrões, quando tem reconhecimento de identidade, autoral, estou fazendo uma coisa contra a corrente. A sensação é muito boa, se existe reconhecimento de parte de gente que conhece e pesquisa sobre isso. É um caminho, não o único. É para continuar.”

Resistência: o trabalho autoral

Para quem está engatinhando no design e teme não ser aceito, tende a ficar na zona de conforto, a experiência de Nicole é valiosa:

“A questão autoral se coloca em situação de avaliação. Quando trabalha com o autoral precisa que as pessoas aceitem, eu preciso acreditar que é bom, que vão gostar. Cestos de vimes existem muitos. Tem muita gente seguindo o mesmo caminho por medo. No Rio Grande do Sul, a gente não vive um caminho favorável à inovação. E ainda tem o Brasil vivendo situação de negatividade.”

Maturidade

Hoje ela vive um momento de maturidade: “Estou há 10 anos trabalhando com isso. Já me sinto segura de dizer que é difícil. Não é crítica raivosa.”

E abre espaço para se maravilhar, referindo-se ao repórter do Financial: “Puxa vida, esse cara quer falar comigo. É como o meu dia a dia: eu gosto do meu trabalho, não toca a música da cinderela quando eu acordo, nem gostaria, mas eu tenho oportunidade de conhecer e vivenciar pessoas muito legais.”

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