Margs: Acervo em Movimento

Abre nova exposição no MARGS com a curadoria compartilhada
Abre nova exposição no MARGS com a curadoria compartilhada

A exposição Acervo em Movimento, que abriu neste final de semana no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS), é um experimento de curadoria compartilhada entre as equipes do museu. As obras expostas na coletiva têm a data de exposição no cartão de identificação de cada trabalho porque, ao longo da mostra, obras sairão e outras se acomodarão nas Pinacotecas do MARGS, junto à Praça da Alfândega, em Porto Alegre.

A emigrante, de Napoleone Grady, mostra a versão de imigrantes da época. A obra é de 1887
A emigrante, de Napoleone Grady, mostra a versão de imigrantes da época. A obra é de 1887. Esta pintura está entre as peças mais conhecidas do acervo do MARGS

Sábado, em torno de 11h, antes de serem abertas as portas da área expositiva, houve a cerimônia de posse do novo diretor, Francisco Dalcol, configurando uma dupla comemoração de atividade no museu que teve a presença da secretária de Estado da Cultura, Beatriz Araújo. A gestão do diretor se estende por quatro anos. E a visitação da exposição coletiva segue até 21 de julho, com entrada gratuita, de terças a domingos, das 10h às 19h. Visitas mediadas podem ser agendadas no e-mail educativo@margs.rs.gov.br.

Portinari de 1954
Portinari de 1954

Acervo em Movimento é uma ampla exposição baseada no acervo do museu, ocupando as três galerias das Pinacotecas, o espaço nobre do MARGS. O projeto expositivo consiste em um exercício experimental de curadoria com as equipes do museu, que atuarão no desenvolvimento da mostra em regime compartilhado. A exposição inaugura com uma seleção de obras do acervo, passando até julho por alterações quase mensais com entradas e saídas de outras obras. Cada uma dessa “viradas” será conduzida por integrantes dos Núcleos de Curadoria, Acervo, Educativo, Documentação e Pesquisa, e Restauro e Conservação.

Ratão, de Lia Menna Barreto, é de 1993
Ratão, de Lia Menna Barreto, é de 1993

Com essa estratégia de substituições de obras, Acervo em Movimento busca oferecer uma exposição viva e dinâmica. Na configuração de estreia proposta pelo diretor-curador, traz a público obras de nomes relevantes da arte brasileira, como Di Cavalcanti, Portinari, Tarsila do Amaral, Volpi, Guignard e Lygia Pape. Há também obras de nomes referenciais entre artistas gaúchos, como Carlos Scliar, Tenius, Alice Brueggemann, Elaine Tedesco, Gisela Waetge, Lia Menna Barreto, Mário Röhnelt e Carlos Pasquetti.

Balões na Paisagem Mineira, é criação de 1959 de Alberto da Veiga Guignard
Balões na Paisagem Mineira, é criação de 1959 de Alberto da Veiga Guignard

Essa seleção e sua configuração expográfica não seguem ordenações de estilo, origem ou período. Como uma exposição não cronológica e desenvolvida segundo o conceito de montagem, o projeto explora diálogos e confrontos a partir de articulações de vizinhança e rebatimento entre as obras no espaço expositivo, propondo assim relações novas, inusitadas e provisórias de ordem conceitual, histórica, política, formal e mesmo afetiva.
Acervo em Movimento constitui um primeiro experimento curatorial voltado ao acervo, o qual se quer permanente na política de exibição do MARGS nesta gestão, passando a ocupar diferentes salas do museu depois desta estreia nas Pinacotecas.

Alvora, de 1976, de Yeddo Titze, é obra feita em tear manual de baixo liço com fios de lã e tecidos rasgados
Alvora, de 1976, de Yeddo Titze, é obra feita em tear manual de baixo liço com fios de lã e tecidos rasgados

Texto Curatorial

Como exposição que marca a estreia da gestão que se inicia em 2019, Acervo em Movimento: um experimento de curadoria compartilhada entre as equipes do MARGS integra uma política institucional de exibição dedicada a explorar estratégias de abordagem do acervo do museu, por meio de exercícios curatoriais voltados à experimentação de modelos expositivos.
Um dos mais importantes patrimônios do MARGS, o acervo artístico guarda mais de 5 mil obras de artistas brasileiros e estrangeiros, do século 19 à atualidade. Esse conjunto abrange desde produções regidas pelos modelos acadêmicos europeus, passando pelas rupturas das manifestações dos modernismos em diferentes geografias, chegando à pluralidade dos desdobramentos operados pelas práticas artísticas contemporâneas.
Acervo em Movimento se desenvolve como um primeiro experimento de curadoria compartilhada entre as equipes do museu (Núcleos de Curadoria, Acervo, Educativo, Documentação e Pesquisa, Restauro e Conservação), que conjuntamente e em revezamento exercitam uma mesma estratégia de organização de uma mostra dedicada ao acervo.
Ao invés de apresentarmos um recorte de obras agrupadas sob um tema preestabelecido ou uma narrativa a priori, optou-se por confrontar as chamadas curadorias de tese e suas abordagens ilustrativas, tensionando e mesmo rompendo com suas premissas. O interesse é problematizar exposições que subordinam as obras a leituras retóricas e por vezes arbitrárias, que não raro acabam por prescrever e normatizar a experiência plural e aberta que a arte oferece.
A partir das noções de dispositivo e montagem, Acervo em Movimento coloca em operação um modelo de exposição recombinante, em que obras entram e saem durante o período expositivo. À primeira seleção, proposta em março pelo diretor-curador, seguem-se até julho quatro alterações no conjunto, em intervalos quase mensais, sendo uma resposta à outra, cada qual implementada por uma equipe do MARGS. Nas configurações que a exposição assumir, o interesse é sondar as provisórias relações de vizinhança estabelecidas entre as obras e as tensões das partes com o todo.
Ao lançar mão da estratégia de substituições dos trabalhos de arte enquanto metodologia crítica busca-se também oferecer uma exposição viva e dinâmica, que aposta na experiência mais do que nos discursos, e na descoberta mais do que nas verdades.
Obras de arte não “falam” apenas por si mesmas. Seus sentidos são também efeito do que podem produzir no interior dos territórios discursivos que uma exposição coloca em causa. Ao combinar a individuação das obras e sua inserção em uma narrativa articuladora do conjunto, propondo relações significantes guiadas por tonalidades afetivas e críticas, a curadoria guarda a potencialidade de instituir ao modo aberto uma dimensão experiencial, oferecendo desdobramentos que intensificam e multiplicam as formas de ver, sentir e reagir.
Abrindo mão de roteiros predeterminados, procurando também eliminar hierarquias entre as obras do acervo, esta exposição pergunta ao visitante: quais relações podem ser feitas entre objetos de diferentes origens, períodos e estilos? O convite é para que o público constitua os seus caminhos interpretativos, estabelecendo suas próprias relações e conexões, as quais sempre envolvem o que já sabemos, a expectativa do que ainda não vislumbramos e o estranhamento transformador da experiência inesperada e arrebatadora.
Quanto ao sentido compartilhado deste projeto, não se trata apenas da dinamicidade da exposição ou da simples participação das equipes. Mas em qualificar a rotatividade das obras e o protagonismo das escolhas, uma vez que o empenho crítico de transversalizar o processo curatorial corresponde ao gesto de distribuir e horizontalizar o poder de decisão entre as equipes.
Questionando a centralidade do curador na determinação dos sentidos artísticos e desafiando chaves de leitura que encapsulam o conhecimento sobre arte, Acervo em Movimento mobiliza questões prementes que orientarão esta gestão, como a necessidade de se descolonizar narrativas eurocêntricas, dessacralizar a retórica autoritária dos discursos canônicos, tensionar hierarquias preestabelecidas que reiteram os relatos dominantes, e explicitar as
representatividades e suas lacunas em acervos e exposições.
Ao enfatizar a potência da descoberta sem o aprisionamento do tema, e privilegiar a experiência da surpresa sem a asfixia do discurso, Acervo em Movimento constitui um experimento curatorial que se quer de caráter permanente na política de exibição do MARGS, passando a ocupar diferentes salas do museu depois desta estreia nas Pinacotecas.

Francisco Dalcol
Diretor-curador do MARGS
Doutor em Teoria, Crítica e História da Arte

De pedra sabão, o Exu de Mário Cravo é de 1955

Datas de alterações na exposição:
16.03 – Abertura com seleção de obras pelo Diretor-Curador (Duração de 23 dias)
08.04 – Obras escolhidas pelo Núcleo de Curadoria (Duração de 27 dias)
06.05 – Obras escolhidas pelo Núcleo Educativo (Duração de 27 dias)
03.06 – Obras escolhidas pelo Núcleo de Acervo (Duração de 27 dias)
01.07 – Obras escolhidas pelo Núcleo de Documentação e Restauro (Duração de 20 dias)
21.07 – Obras escolhidas pelo Encerramento da exposição
Ações do Núcleo Educativo
Durante o período de visitação até julho, serão realizadas atividades, ações, falas e um curso dentro
do programa público da exposição.
Acompanhe a programação:
www.margs.rs.gov.br
www.facebook.com/margsmuseu

SERVIÇO
Acervo em Movimento: um experimento de curadoria compartilhada entre as equipes do MARGS
Abertura: 16 de março de 2019, às 11h
Visitação: De 17 de março a 21 de julho de 2019
Local: Pinacotecas do MARGS (Praça da Alfândega, s./n.o)
Entrada franca
O MARGS funciona de terças a domingos, das 10h às 19h, sempre com entrada gratuita.
Visitas mediadas podem ser agendadas no e-mail educativo@margs.rs.gov.br

Patrocínios:
Banrisul
BRDE
Sulgás

Apoios:
Café do MARGS
Banca do livro
Bistrô do MARGS
Arteplantas
Celulose Riograndense
Oliveira Construções
AAMARGS

Realização:
Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria de Cultura do RS

Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
Localização: Praça da Alfândega, s./n.
Centro Histórico, Porto Alegre, RS
Telefone: 51 32272311
Site: www.margs.rs.gov.br
www.facebook.com/margsmuseu
www.twitter.com/margsmuseu

Óleo sobre tela Croquis d’O Labor, Antônio Parreiras,1930 (fotos Studio Prestes)
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